A aurora de um novo tempo de encontro com Deus sempre se anuncia na imensa profusão da vida - novidade não experimentada por aqueles que ainda não foram atingidos pelo raio da lucidez...sempre percebida entre os que foram chamados das trevas para a sua maravilhosa luz (1. Pedro 2.9). Se tirarmos as sandálias dos pés nesta terra e reverentemente aprofundarmos o olhar no plano da paisagem, na linha da imanência, perceberemos lampejos de sua silente manifestação nos lugares e detalhes mais inesperados. Nos mais áridos e desconfortáveis recantos onde almas se encolhem, no grau zero da existência, seu Espírito escolheu fazer casa permanente. A inquietação que toma nossos corações e faz estremecer nossas frágeis estruturas corpóreas diante de enormidade da vida, são as substâncias da história divina impressa em nós - da criação ao Getsêmani, do Getsêmani à ressurreição, da ressurreição à descida do Espírito Santo para encorajar suas testemunhas -, vividas em seu exílio voluntário na forja deste mundo de tantas despedidas cumpridas a todo instante.
É este e não outro Deus qualquer que convida-nos a nos lançarmos de peito aberto para encontra-lo no lugar de sua escolha eterna, no turbilhão das mais corriqueiras sensações, dos mais profundos anseios humanos, sinalizando do meio das nossas mais ferrenhas lutas, entranhado na carne passageira do mundo que ele tanto amou.
Aos supranaturalistas que odeiam tudo o que é humano, tudo o que é da Terra, tudo o que é fenômeno do corpo, os lampejos dessa aurora são vedados, pois, não percebem quando no horizonte, mesmo sombrio - Deus também habita em trevas espessas (1 Reis 8.12), e delas faz um manto e com ele se oculta (Salmo 18.11) - desponta a possibilidade de se viver uma nova consciência, livre das fábulas e medos que atormentaram nossos antepassados. É-lhes vedado não por um processo seletivo natural, mas por preferirem o consolo anestésico de projeções abstratas que lançam para o post mortem o início da verdadeira vida, nada mais que doses homeopáticas daquilo que Marx chamou de ópio do povo. Poucos são os que percebem esse novo tempo sempre pronto, menos ainda são os sem medo que, despertando antes da alvorada, com preces nos lábios e no coração a coragem de ser, saem descalços pelas estradas da vida como pastores da terra proclamando que é chegada a hora, arrancando as pedras do caminho, irrigando os campos com suor e lágrimas, semeando a justiça de seu reino.
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Nietzsche proclamou a marteladas a derrubada de determinado prédio teológico no qual morava um certo deus, em cuja placa de entrada do condomínio estava escrito: Platonismo para o povo. Derrubado o prédio, o tal deus morreu entulhado entre seus escombros. Pregar a morte de um deus fabricado, legitimador da eufórica fuga da realidade, ainda causa furor nos membros de ambientes religiosos que detestam que gente seja gente, como se pecado fosse ser carne, sangue, ossos e emoções. Sendo esse deus ensimesmado e manhoso o maior inimigo da vida.
Muitos crentes, abatidos e temerosos de que seu deus (que está morto) seja deposto de seu altar de conveniências, se deleitam na sensação de segurança embutida num ídolo do lar, preferindo o medo à liberdade. Sobre esse tipo de medo o discípulo amado escreveu, mas eles não entendem: "No amor não existe o medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor" (1 Jo 4.18).
O saldo dessa história é que a postura esquiva desses crentes em relação a absoluta e intransferível responsabilidade humana com a vida, os levou a criar uma divindade à sua imagem e semelhança, a adorna-la e bajula-la como uma muleta metafísica, desde outrora chamada pelos filósofos de "ideia de Deus".
Percebido e experimentado por poucos, um movimento iniciado pelo próprio Deus há quase dois mil anos em um sensível peão de obra de Nazaré está empurrando para fora da história os restos dessa ideia construída pelo limitado imaginário humano. Ficando para estes que persistem em recuar ante ao exigente tempo, apenas a expectativa de um arrebatamento secreto para bonzinhos e preparados, ou, o reparador conforto momentâneo do dinheiro para alguns que se acham predestinados por divino decreto.
Deus navega por uma memória sem margens e aqueles que julgam defendê-lo escorados em proposições de mais de quinhentos anos, pensadas por homens idôneos e íntegros, porém falhos e temporais, como se estas fossem absolutas no que dizem a seu respeito, são constrangidos por Jesus – quando o levam a sério – de que ele não pode ser estancado por nada que seja transitório e relativo. Estancar Deus, dizer que ele é desse ou daquele jeito, conferir-lhe uma personalidade estática, é fabricar um ídolo. E ele em sua longa história proibiu que se esculpissem imagens que tentassem imprimir esteticamente sua identidade e caráter em um objeto inanimado sujeito à degradação; Deus não é um pedaço de pau ao sol que prova que existe porque produz sombra.
O Deus verdadeiro se mostra vivo no vestido das paisagens, no vento levando seu corpo por entre as alamedas da vida, nas leves manhãs enevoadas, em cada flor orvalhada que se abre ao Sol, em cada perdão depois da mágoa, na mão estendida que ajuda alguém exausto a ir mais longe, nas planícies devastadas pelas guerras em nome da paz, na natureza fraturada pela ambição humana, na criança faminta e aterrorizada pelo som de bombas e o cheiro da morte, no chão encharcado pelo sangue dos mais belos animais que ele criou para nos encantar com gratidão nos lábios. Os que não o percebem são meros espectadores, porque desprezam a chance singular, irrepetível, de ser gente, de se realizarem como seres humanos, único jeito de se aproximar dele e de vê-lo, tanto através da beleza que dele emana, quanto no sofrimento que o aflige.
O tempo que se anuncia desde a plenitude da encarnação do Verbo é tempo de gente que aceitou o convite do Deus que veio, ficou e se realizou como gente, Jesus, que em seus ensinos, com envergadura humana singular, exemplar, nos convidou a construir a história a quatro mãos, gente que não se conforma em ser mero espectador na vida, que tampouco se esquiva das responsabilidades que demanda a parceria.
Por isso, crer é o contrário de esconder-se atrás de fórmulas, dogmas ou promessas somente para depois; é aceitar o risco de existir com lucidez diante dele e do mundo agora. A fé que nasce da encarnação não nos retira da história, pelo contrário, ela nos lança mais fundo nela, exigindo mãos que tocam a terra com amor e coração aberto à dor do mundo.
Para encontra-lo é necessário consentir em permanecer onde ele escolheu estar - no meio da vida comum, ferida, contraditória -, e ali responder, com postura, encanto, assombro e paixão, ao chamado que nos atravessa.
Esse é o verdadeiro escândalo do Evangelho: não um deus que nos poupa da condição humana, mas o Deus que a assume, nela anuncia sua vontade e a santifica. Segui-lo é abandonar a segurança de um céu imaginário onde reina uma divindade inventada, supérflua, e aprender a caminhar descalços sobre a mesma terra em que ele caminhou, fez amizades, curou enfermos, deu pão aos pobres, almoçou com pecadores, sorriu, dançou, descansou, chorou, derrotou demônios...fazendo da própria existência um lugar de encontro, de justiça e de esperança nele encarnadas.
Alex Carrari