O milagre vindo de fora, apresenta Deus como um mero fazedor de coisas (parte 1)
A maneira do senso comum cristão - sobretudo o evangélico-protestante - lidar com o milagre sempre como uma drástica intervenção no natural, um super poder vindo de fora, de cima, que corta o plano transitório, fazendo acontecer aquilo que seria impossível em um mundo organizado de acordo com as consagradas leis físicas universais, leis que, pela própria regularidade de sua ocorrência, são antagônicas à lógica do “sobrenatural”, foi a principal causa da sensação que o homem moderno sente em ralação à distância de Deus dos assuntos da vida ordinária.
Quando a cristandade achou coerência e encorporou à singular e irretocável mensagem do Cristo, o modelo platônico de separação entre transcendência e imanência, mundo ideal e mundo sensível, eterno e transitório, céu e terra, alma e corpo, a fé no milagre como uma comunicação divina que brota do centro da própria vida e não de cima para baixo, não encontrou mais lugar no coração das pessoas.
Os cristãos de agora ainda não se deram conta do quanto essa compreensão dicotomista é impessoal e distante do ensino de Jesus sobre o que é o milagre, e não de onde ele vem. Certamente, estes ainda apostam na conveniente crença de que Deus recorta a existência com seu todo-poder para operar bruscamente em favor dos seus, e que toda ação divina desce invisivelmente do céu sem qualquer relação com essa realidade de três dimensões, a não ser sua fidelidade ao mecanismo da oração que o faz demover-se de sua condição de deus eternamente imóvel, que não se contém e é levado a fazer algo em favor daqueles que o invocam e bajulam direitinho.
Um deus que opera apenas por meio de intervenções bruscas e diretas lançadas de cima é uma ideia tentadora que satisfaz uma das ansiedades mais primais que domina a consciência humana desde que nossos parentes distantes – quando já eram algo mais que símios bem dotados na escala evolutiva – se deram conta do quanto a vida é indomada. A vida em amplos horizontes se organiza de maneira que escapa ao nosso domínio e entendimento. O ser humano não tem forças para suprir todas as suas carências existenciais, nem para superar as contingências, e como não aceita que demandas não supridas fiquem na conta das indeterminações, das incertezas, das não-respostas, ele tende a pressionar Deus para que seja atendido, ou pelo menos que possa depositar em sua conta eterna – sob o manto aparentemente piedoso da dependência – os ônus de toda a sua insuficiência humana.
Por causa dessas carências, demandas, incertezas..., ou para usar a expressão de Dietrich Bonhoeffer, dessas lacunas que se abrem pelo simples motivo da vida se estabelecer (para a mente humana) nos domínios do imprevisível, esse cristão impulsiona um tipo de relação rasteira com Deus, imaginando-o como um mero fazedor de coisas, que para mostrar que se importa, deve intervir, mesmo que demore um tempo que só ele em sua inabalável esfera eterna tem a paciência de esperar. Assim, para, diretamente amenizar a ansiedade humana e indiretamente livrar sua barra por tanta demora, não desmoralizando aquele que diz que ele se utiliza de meios que somos incapazes de entender os fins, alega-se que o tempo é a planilha onde Deus elabora sua pedagogia divina.
O infeliz arcabouço grego-platônico que decretou que existe uma realidade, essa superior, matriz perfeita (mundo ideal) e outra que não seria bem uma realidade, e sim uma cópia precária, inferior daquela (mundo das aparências) – superior não apenas em espacialidade, mas principalmente em qualidade –, ridicularizou a vida no plano sensível, banalizou a experiência concreta, brincou com o valor intrínseco do mundo estigmatizando a gravidade e o apelo urgente da vida como nada mais que uma repetição de gestos fracassados dentro de uma filial imperfeita, sombra do mundo ideal.
A mensagem de Jesus, mais especificamente a leitura dos milagres interpretada sob a lógica do arcabouço grego de compreensão da existência em duas esferas com valores absolutamente opostos, desembocou na retirada involuntária de Deus para a periferia do espaço, reaparecendo somente quando acionado para preencher as lacunas abertas pela fraca consciência humana, seja para intervir ou para dar resposta e propósito à algum acidente; de uma maneira ou de outra, depois de muitos esforços para mover seu braço e chamar sua atenção para a condição instável da vida cá em baixo.
Se ele mora na distante transcendência, se a vida imanente não possui valor que equivalha ao do mundo ideal, se ele está para aquele mundo assim como nós estamos para este, se ele tem o todo-poder e nós as lacunas, então o milagre não está aqui, está lá e fora de nosso alcance, e é no altar desse deus distante que queima o fogo santo que pode nos dar autonomia, porém não temos um Prometeu que roube uma faísca e nos dê esse dom libertador.
Não, não temos um Prometeu que nos conceda a graça de decidir nosso próprio destino, que nos torne autônomos do poder maciço e passivo desse deus, que nos libere da dependência de suas caras bênçãos que com tantas preces, sacrifícios, dispendio de energia e desgaste físico, ansiamos.
Sendo assim, a existência não encontra significado, a vida nada mais é que a espera melancólica de alguma coisa que no fundo tememos saber o que é, e o milagre uma intervenção vinda de cima que satisfaz nossas carências, e vamos envelhecendo reclamando cuidados de criança a um Pai que fazemos questão de ignorar que nos quer adultos, enquanto nos resignamos na ideia de que os mínimos cuidados sobrenaturais são sua obrigação, são gestos que confirmam que ele nos ama.
Então, Deus – caricaturado como um irmão gêmeo de Zeus –, segue tendo sua utilidade apenas fazendo coisas, ou seja, milagres. E os milagres que faz são para provar que ele existe e que merece um pouco de crédito e atenção, pois para isso ele ainda dá sinal de vida por aqui quando acionado, resistindo há cerca de quinhentos anos, desde que foi dissolvido o cosmos medieval em que habitava e fazia sentido, e não foi achado um novo lugar para seu domínio senão em um mundo espectral fora do alcance dos nossos olhos.
Que triste para um Deus que criou este mundo que ele mesmo achou muito bom, e que sentia um indescritível prazer em ficar por aqui na companhia de sua imagem e semelhança, quando ainda não havia sido empurrado pra fora da vida, e ser acionado só quando sua utilidade precisasse ser reforçada.
Continua...
Alex Carrari