O milagre vindo de fora, apresenta Deus como um mero fazedor de coisas (parte 2)
Se o apóstolo Paulo não tivesse escrito que Deus nos desvendou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir nele todas as coisas, celestiais e terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos (Efésios 1.9-10), estaríamos ainda tateando em um mundo fechado para qualquer sentido humano supremo, à espera de um semi-deus libertador, capaz de conferir um pouco de significado a esse violado vale de lágrimas.
Nesse que é um dos trechos mais paradigmáticos do apóstolo, Jesus aparece como aquele que une céu e terra em si mesmo. O céu não é mais tão distante que não possa ser tocado pelos humanos, o mundo não é mais tão profano ao ponto de Deus rejeitar ter contato com ele.
Em nosso tempo a insistência em se ler as novidades do Evangelho com as lentes convencionais da filosofia grega e a total e proposital ignorância do valor que a mensagem evangélica primordial acentua do mundo imanente – digo acentua, porque a narrativa do Antigo Testamento nunca desvalorizou a imanência, e mais que isso, sempre pensou herança eterna em termos bem materiais –, são as principais responsáveis pelas mensagens dicotomistas aparentemente cheias de pudor que pensam preservar a santidade de Deus realçando seu distanciamento do mundo.
Essa conveniente higiene sagrada que ainda se anuncia com caráter oficial de cima de muitos púlpitos evangélicos em nosso tempo, que acredita e prega que Deus preserva sua reputação de Santo mantendo-se separado do mundo, deixando a serviço do Espírito Santo o contato mais próximo com a humanidade – já que ele é o mais incorpóreo dos três entes da Trindade, uma misteriosa entidade abstrata, e, portanto, impossível se contaminar com o toque do sensível e transitório – é a consequência mais deprimente em forma de discurso da atualização do arcabouço grego de compreensão sobre o Evangelho do Cristo.
O que torna a mensagem do Evangelho tão singular é o fato do Logos se fazer gente e dar significado à vida não de fora, ou como uma força, um dinamismo impessoal que traz harmonia ao cosmo como na filosofia estóica, mas sim em envolvimento extremo e pessoal com o mundo e todas as formas de vida que nele há. Ao encarnar-se, o Cristo se envolve com o mundo, divinamente se plasma pó da terra e Espírito sem nenhuma reserva e é sobre esse envolvimento que Paulo está escrevendo.
Ao escrever que Deus fez convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, Paulo está dizendo algo muito mais profundo do que a Cristologia supranaturalista supõe ao tentar expressar o mistério da encarnação em termos que colocam em vantagem os atributos metafísicos de divindade em relação à porção humana de Jesus. Essa vantagem aparece sempre que a discussão sobre ele ser Deus-homem vem acompanhada de um, “sim ele era homem igual a nós, porém...”. É nesse “porém” que reside a exaltação dos atributos divinos de ordem metafísica e, por conseguinte, o rebaixamento de tudo o que se relaciona com o mundo da matéria e das limitações tipicamente humanas.
É assim que a teologia supranaturalista tem se mostrado predominantemente docética ao pregar sobre a encarnação do Verbo: significa que Jesus era muito parecido com um homem, mas por dentro – à semelhança do invólucro platônico do corpo que aprisiona a alma – ele era Deus. O lado Deus de Jesus vai sempre prevalecer, ser sempre mais excelente em relação ao seu lado humano. Mais que isso, seu lado humano, nada mais é que um disfarce que oculta o Deus que ele realmente é.
A maneira tradicional do supranaturalismo descrever a encarnação é: Jesus sendo Deus Todo-poderoso, caminhando na terra, fazendo temporariamente algumas coisas de homem, mas no fundo mesmo, era Deus vestido de homem; Jesus era uma roupa que Deus vestiu por um pouco mais de três décadas.
João diz que todo aquele que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo (1 João 4.2.3).
Não confessar Jesus não é apenas rejeitar o invólucro humano que abriga sua alma divina. Vamos mais fundo nisso, até o limite: João não está falando de negar uma constituição humana pessoal em Jesus, quer dizer, ele em aparência humana, a questão abrange um espaço maior, o espaço da história de todas as vidas humanas que procuram por um significado para estarem no mundo.
Não há quem viva no mundo sem dele participar, sem depender de suas estruturas, desde as estruturas de linguagem às de cultura, comportamento e economia. Não há quem esteja no mundo sem dele depender de sua organização espacial, cronológica, biológica. Em outras palavras, não há como ser humano sem se envolver por completo com o mundo, sem ser dependente dele como de um imenso organismo vivo do qual emana energia vital, sem se reconhecer um filho de homem com muitos irmãos.
A falta dessa noção de estar no mundo sendo dele participante numa relação de interdependência com tudo e todos, não sendo possível dele se separar, foi o que fez com que muitos religiosos imaginassem Deus nos confins dos céus, distante dos assuntos terrenos, Jesus ao seu lado incólume em seu trono, e a vida humana sem valor intrínseco rolando aqui embaixo. Essa ideia tirou da vida o caráter sagrado que o Cristo lhe conferiu e deu preferência à separação entre sagrado lá fora e profano aqui dentro. Separação que no imaginário do religioso médio é espacial, no psicológico coletivo é intransponível, sendo diminuída, mas não abolida, pelo ritual do culto. Nessas circunstâncias o culto se organiza como um programa mitológico moderno agravando o distanciamento divino dos assuntos da vida, que tem em sua liturgia o propósito de chamar a atenção de Deus e fazer com que ele seja favorável às demandas humanas; que o profano seja tocado pelo sagrado, nem que seja por cerca duas horas uma vez por semana.
Me refiro ao culto por ser este uma representação de toda essa negação da vida que até aqui tem ocupado minha preocupação.
É nesse ponto que me lembro do que escreveu o bispo John Robinson em seu HONEST TO GOD, um livro de 1963, em que dentre outras questões ele reflete sobre o sentido do culto a partir das perguntas feitas por Bonhoeffer em suas cartas da prisão.
No capítulo cinco, que tem o belo e não pouco provocativo título de “Santidade mundana”, Robinson se propõe a pensar sobre o sentido do culto e da oração em uma sociedade, que, como observou Bonhoeffer, é cada vez menos dependente da religião, e que dá origem a famosa “Cidade Secular” de teólogos Radicais como Harvey Cox.
Citando livremente Bonhoeffer, ele escreve que o culto deve ser a “afirmação do ‘além no meio da vida’; do sagrado no comum”, contra a ideia de que sagrado é o que não é comum e que a esfera do religioso é o espaço do santo dos santos, o que faz recair na concepção dos sacerdotes do antigo culto da Lei. Concepção que foi “destroçada pela encarnação quando Deus declarou todas as coisas santas, e o véu do templo se rasgou de alto a baixo”:
“Para o cristianismo, pelo contrário, o sagrado é a ‘profundidade’ do comum, exatamente como o secular não é uma secção da vida (sem Deus), mas o mundo (o mundo de Deus, pelo qual Cristo morreu) separado e alienado da verdadeira profundidade. O fim do culto não é retirar-se do secular para o refúgio do religioso, muito menos escapar ‘deste mundo’ indo para ‘o outro mundo’, mas abrir-se ao encontro de Cristo no comum, abrir-se àquilo que tem o poder de penetrar-lhe a superficialidade e redimi-lo da alienação”.
Robinson empresta de Paul Tillich o termo profundidade, que ao refletir sobre o simbolismo religioso que projeta um Deus lá fora fala de:
“um Outro para além dos céus, cuja existência nós temos de nos convencer, mas que não está lá fora, é a Base do nosso próprio ser. O nome desta infinita e inexaurível profundidade é o que significa a palavra Deus”
Falando da transformação do simbolismo religioso tradicional, transpondo Deus das alturas para a profundidade, Tillich está empenhado em refazer o mesmo caminho de Paulo. Ao falar de Deus em profundidade na imanência e, portanto, não lá fora, o teólogo alemão restitui à existência seu valor intrínseco, algo que vemos explícito nos Evangelhos de Jesus e nas cartas do apóstolo Paulo. Claro que a questão que Tillich levanta é bem mais complexa que este resumo, e para maiores informações é preciso ler suas obras. Mas o que me interessa aqui é o que ele resgata desse valor da existência que o supranaturalismo subtraiu quando afastou Deus do mundo, e a teologia tradicional passou a tratar da relação entre transcendência e imanência em termos espaciais intransponíveis, sempre exaltando uma e desmerecendo a outra:
“E se essa profundidade não tem grande sentido para ti, tradu-la, e fala das profundidades da tua vida, da fonte do teu ser, da tua máxima preocupação, daquilo que tomas a sério sem qualquer reserva”.
Essa profundidade só se alcança, como diz Kierkegaard, por uma mais profunda imersão na existência. Porém, só imerge na existência quem nela encontra um valor sagrado, e só encontra nela valor sagrado quem nela encontra Deus santificando a terra.
Continua...
Alex Carrari