Ensaio sobre a lucidez: não estou no mundo para ser feliz

"É melhor ser infeliz, mas estar inteirado disso, do que ser feliz e viver como um idiota."

Fiódor Dostoiévski, em O idiota (1869)


A felicidade à maneira deste mundo é um equívoco dos que acham que ela existe como existem as coisas em suas aparências falsificadas. Me cansei tentando acabar com essa crença fraca na mente dos que na companhia um dia andei e cantei, que não querem saber para não ter de se incomodar, e continuar no sossego, polindo os pés de barro de seus ídolos à imagem e semelhança de si próprios. Já não ando nem canto mais entre os que não querem se incomodar, a esses falei em tantas noites de domingo do alto de um púlpito achando que era possível incitá-los a furar suas bolhas mentais, hoje escrevo sem sair da minha casa:que continuem juntando os farelos das promessasque caem da mesa dos donos de seus sonhos de conforto simulados nas câmaras do hedonismo, que se ocultam sob o pueril disfarce de uma quimera em outro céu estranho à esta vida, que acreditam piamente, é a herança reservada aos que passarem justificando incólumes e conformados as aflições deste mundo fraturado, sem apresentar seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável à Deus.


Na lassidão do tempo,

a adega evapora,

o vinho seca,

as utopias caducam,

e eu suspiro a superação 

de meu fracasso emocional,

enquanto neste dia cinza 

sou atingido pelo trompete abafado

do Miles Davis,

“Flamenco Sketches”,

música da terra na frequência do além,

e eu choro quieto e só,

mesmo que em raros momentos 

esteja rodeado de tanta gente.


Não estou no mundo para ser feliz, estou para ser lúcido. Lucidez traz tristeza e uma espécie louca de alegria, esse paradoxo que o Cristo ensinou - Felizes são os infelizes. Alegria por não ser um idiota que ri de tudo, porque nem tudo na vida tem graça. Tristeza porque consigo enxergar claramente a celebração do direito ao barulho e ao riso de poucos abafar o som grave do lamento de muitos. Religião que mata, paixões que enganam, faca cega no peito, estupro na sala de bonecas, nome riscado dos arquivos da vida, deus caprichoso lançando em tormentos quem não tem o nome escrito em seu enorme livro de verdades manipulado por homens de torpe ganância. A prostituta desonrada ali, bem ali por trinta moedas sob a luz de todos os olhares retos, o menino aqui, bem aqui, esperando que alguém pergunte seu nome, que lhe esmolem um afago na cabeça enquanto o vidro do carro com adesivo "Deus, pátria e família" sobe impassível acionado por um santo meritocrata sanitizado que se acha um escolhido para o céu depois, enquanto é indiferente ao inferno na vida do próximo, agora. E lá, no mundo exótico do oriente, porque debaixo do chão correm rios de ouro negro, o deus do destino manifesto americano, autoriza seus beatos, democratas e republicanos, a presentearem bilhões de dólares abençoados em armas ao exército de seus lacaios sionistas, para com precisão, mutilar crianças, sufoca-las com gás, mata-las de fome, doenças, bombas, tiros nas costas, na cabeça, no peito, violentar suas mães, assassinar seus pais, estraçalhar seus bichinhos de estimação, assolando toda a criação que encontram pelo caminho, como oferenda sobre o altar da democracia neoliberal judeu-cristã, porque odeiam tudo o que é bonito, toda a liberdade…odeiam o amor, mas odeiam mais do que tudo quem resiste e não se curva diante do único senhor que adoram, o dinheiro. 

Nada disso tem graça, ninguém pode ser feliz sabendo disso, e eu sei, e se sei, como posso querer ser feliz?

Saber é enxergar, e o enxergar desse saber é ser abatido pela realidade estrangeira de Camus sob um céu de inexatas impressões que fere os olhos e castiga a razão. Eu sei, por isso não me permito querer ser feliz, quero saber mais, ainda que saber me esmague, ainda que eu verta nesse saber minha carne e sangue dia e noite. 

Estou no mundo, mas tudo o que sei não vem apenas do mundo, existe algo mais profundo que vem do alto, porque Aquele que de lá desceu e para lá voltou me fala, me mostra, e me fala aqui com os pés na terra, fala daqui para aqui, e para além daqui.

Ele, que não me permite nem descansar no sono, me convoca ao silêncio da névoa que lá fora, umedecendo o ar noturno, para juntos ouvirmos o pranto da terra, cochicha aí meu ouvido: meu filho, recuse a tentação de crer numa flutuação desencarnada, desprendida da dor dos corpos que arquejam nessa passarela fria da morte normalizada nesse mundo de enganos. 

Não estou no mundo para querer ser feliz; como posso querer ser feliz num mundo onde rastejam tantos Netanyahus, Kissingers, Bushs, Bidens, Trumps, Bolsonaros, Epsteins...salivando violência e morte com a conivência e os aplausos daqueles que dizem amar e servir o Deus que tanto amou os que eles desprezam? Como posso querer ser feliz vendo o massacre das crianças de Gaza pelas balas e mísseis dos adoradores da "nação santa", arquitetos da Sião dos alicerces de sangue, e sobre seus pedaços misturados ao pó triunfar bandeiras com aquela estrela sem sentido? Estes mesmos adoradores que detestam e matariam o Filho de Deus quantas vezes ele encarnasse como um palestino peregrino, que veio tirar o pecado do mundo e não tinha onde reclinar sua cabeça.

Não acredito em jogo começando do zero, é tudo continuação, desenvolvimento, uma coisa leva a outra, e mesmo a morte é passagem para outra experiência, seja continuação da vida em estado pleno ou a definitiva não-vida, a segunda morte, como João descreve no final de seu livro das Revelações, e muitos destes senhores da morte que não pagarão aqui por todo horror que fizeram, colherão na continuidade do porvir tudo o que plantaram.

Se a indiferença e o comodismo mantém muitos prostrados e obedientes aos pés dos patrões provisórios deste mundo, somente o terror, as aflições, o medo e a dor que vejo nos olhos daquelas crianças é que me derruba em oração com a cara no pó, por reverência à Divina Providência que virá Naquele Dia, porque sei em quem tenho crido, meus joelhos só se dobram diante do único Senhor de tudo o que há e do que há de ser, nesta vida passageira e na eterna.

Nas madrugadas em que sou acordado por Ele para ser afetado pelos ecos das dores do mundo que amou sem limites fazendo vibrar meu corpo largado ao lado da cama, sinto o desejo de sentir o que Ele sente, e quero tanto abraçar os sofridos da terra como Seu Filho quis, assim como a galinha faz com seus pintinhos, mesmo que minhas asas estejam quebradas e sangrando. 



Alex Carrari



Postagens mais visitadas