O milagre vindo de fora apresenta Deus como um mero fazedor de coisas (parte 3)

Jesus é homem que lida com a vida sem recortes. Para ele não existe essa contradição abstrata de mundo ideal superior x mundo material inferior, o supernatural inalcançável melhor que o natural palpável, transcendência mais nobre que imanência. Em seus ensinos e práticas fica claro que todas as dicotomias são falsas, tudo não passa de convenções de interesse humano para manter o status das estruturas de desigualdade exatamente como estão postas, para benefício dos mesmos grupos que as arranjam e mantém, fazendo do próprio ventre o seu deus e das instituições religiosas suas fortalezas virtuais. Por lidar com a vida sem recortes, o milagre para Jesus deve ser uma ocorrência da vida, mais que isso, em todas as ocasiões - o que é de maravilhar ao final - é a culminação de um movimento ligado à sua conduta de compaixão pela espécie humana, que era o que o impulsionava. Aprofundando ainda mais, há na ocorrência do milagre outro fato surpreendente que para o religioso mediano que não tem envergadura suficiente para encarar que Deus não age sozinho, ignora por completo para sua própria comodidade e inércia; o Deus que preenche tudo como única substância, que não precisa de nada nem ninguém, convida parceiros para operar seus sinais. 

Deus age em parceria, e essa parceria nasce no interior da existência, no chão da nossa e das suas andanças, vai subindo perante si mesmo como renovo em uma terra seca, terra tocada pelo Eterno feito gente, terra que recebeu seu suor, sangue e lágrimas – os fluidos do divino regaram o chão que pisamos tornando-o eternamente sagrado. E o Verbo se fez carne nascendo da terra, o locus da peregrinação humana, estabelecendo um novo fundamento no relacionamento entre o eterno e o finito. Usando a bela articulação do apóstolo Paulo, Deus fez convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra (Efésios 1.10), se fazendo o perfeito peregrino da unificação, assumindo o destino coletivo da humanidade, tomando sobre si as aflições próprias de ser humano, tocando todas as dores que alcançou, e as que não alcançou, pediu para que seus discípulos o ajudassem a chegar até elas. 

Contudo, lá em seu tempo como cá no nosso, a maioria da cristandade ainda não entendeu, ou se entendeu faz de conta que não, para não ter de reconhecer que a vida e o mundo têm absoluta prioridade na agenda de Deus, pois, reconhecer essa prioridade implica em tomar as dores do mundo sobre si, tornando-se responsável por sua doença e da mesma maneira por sua cura, porque a vida e o mundo, em Jesus, foram resgatados como sagrados, e os dois estão unidos nele.

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Giorgio Agamben intui muito bem sobre o movimento que as dicotomias operam des-sacralizando a vida e o mundo quando diz que o profano não é o secular-utilitarista, mas o resultado da profanação do sagrado.

Jesus se relaciona muito bem com o secular, não se sente um estranho nesse ninho, e ainda vai tão longe quanto se pode ir prometendo voltar como Espírito para estar em seus discípulos imersos na imanência até o fechamento da história.

Uma vez que a existência e o mundo são sagrados para Jesus, o milagre não é mais uma questão privada de acesso e distribuição pertencente somente a Deus, vindo de fora, ele é um assunto da vida, nasce no nível da nossa caminhada, irriga corpos áridos, acalma corações aflitos, alimenta o estômago de almas famintas, cura deficiências físicas...qualquer um tem acesso, e o mais revolucionário, um qualquer pode ser agente de sua manifestação.

Deus está no mundo e seus discípulos têm o seu Espírito, o Reino está no interior dos que assumem seu Filho como o único ser digno de ser imitado e seguido até as últimas consequências. Portanto, a existência e o mundo não podem ser considerados profanos. E se ambos não são profanos, pelo contrário, foram resgatados como sagrados que são, o milagre não vem de fora, ele acontece à partir daqui mesmo, não é uma intervenção brusca de Deus de cima para baixo, tampouco uma ação unilateral exclusivamente sua, é um feito da vida com todas as possibilidades de acontecimento no único campo de atuação que conhecemos e que nos foi permitido experimentar por enquanto; o mundo dos sentidos habitado pelo Espírito do Cristo através de mulheres e homens que amam a vida do Deus feito carne.  

O milagre só pode ser compreendido como um evento da vida se a existência com toda sua complexidade, em todas as suas manifestações  de beleza, sensibilidade, dores e tragédias, for acolhida como sagrada e o discípulo de Jesus se assumir como responsável amoroso pela fruição da graça de Deus nesta terra através dos elementos mais básicos constituintes da vida.

Esse é o ensino de Jesus quando seus discípulos preocupados com a hora avançada em lugar deserto pedem para que o Mestre despeça a multidão que se aglomera à sua volta por causa dos sinais que o viram fazer na cura dos enfermos, e assim possam comprar comida pelo caminho (Mateus 14.15). Ele rejeita a imediata opção dos discípulos e diz para eles mesmos darem de comer para toda aquela gente. Eles – assim como nós – não entendem sobre a questão da sacralização da vida e seus elementos, então imediatamente André retorna para o Mestre dizendo que encontrou apenas um menino com cinco pães e dois peixes, e afinal o que significa tão pouco para tanta gente? Não tenho certeza, mas me parece que seja essa a justificativa perfeita para que ele despeça mesmo toda aquela gente e nenhuma responsabilidade pese sobre eles. Em seu Evangelho, João diz que Jesus chega a provocar Felipe, perguntando: "Onde compraremos pão, para estes comerem?", e acrescenta que dizia isso para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer (João 6.5-6).

Duas coisas que nos escapam nesse evento, embora estejam explícitas no texto, é que os elementos necessários estão presentes, pães e peixes, e que Jesus convida seus discípulos a serem agentes do milagre – que é bom lembrar, não é tratado por ele como nós, ocidentais platônicos-cartesianos, entendemos milagre. Ao convidar seus discípulos para darem de comer às multidões, Jesus está dizendo que a questão é mais simples do que eles pensam que é. O material está presente na forma simples do alimento, embora insignificante para saciar tanta gente, o que é preciso então para todos não desfalecerem de fome?

Dai-lhes vós mesmos, de comer”, Jesus incita os discípulos na versão do evangelista Mateus.

Pães e peixes não caem do céu, nem surgem do nada dentro um cesto, isso não é milagre é ilusionismo, e Jesus não é um oportunista que ganha a vida ludibriando os outros. 

Para o Mestre, o verdadeiro milagre está na disposição amorosa em distribuir o pouco que se tem para saciar a necessidade de muitos. E um evento como esse é uma lição sobre como administrar os recursos da vida em solidariedade ao outro. O milagre, primeiro de tudo acontece quando do interior de alguém nasce a compaixão. Eis aí o grande começo. Mateus mais uma vez traz a nota: “Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos” (Mateus 14.14, negrito meu). A compaixão é o solo fértil onde brota e ao mesmo tempo a água que rega o milagre.

Então, o que é possível para Deus, Jesus está dizendo que também é possível para os homens. Alimentar tanta gente com tão pouco é perfeitamente natural, é algo que se deve esperar, é algo que se deve fazer. A vida e seus recursos são sagrados porque saíram das mãos de Deus, e Deus deles um dia necessitou para manter-se vivo; o Deus que tudo criou, que tudo pode, que de nada tem falta, um dia dependeu dos elementos mais básicos da vida para viver.

Um dia Deus olhou para a nossa correria nesse mundo, e se inclinou para tudo o que criou e amou tanto que decidiu tocar e se deixar ser tocado.

Um dia Deus entrou na existência comum dos homens e também foi um necessitado, dependeu da caridade e gentileza de amigos e desconhecidos. 

Um dia o Deus feito gente pegou simples alimentos na frente de milhares de almas com fome, os abençoou cheio de compaixão, rendeu graças ao Pai e ofereceu para seus discípulos repartirem entre todos. Nesse dia todos viram o milagre brotar do chão arado, semeado e cuidado que deu o trigo, transformado em cinco pães pelo trabalho das mãos de homens e mulheres comuns, chão que retém água em mares e lagos onde alguém saiu a navegar para pescar e regressou com a rede cheia onde estavam aqueles dois peixes.

 

Alex Carrari


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